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domingo, 30 de novembro de 2014



A Prefeitura de Florianópolis tombou um antigo campo de aviação na praia do Campeche, em Santa Catarina, para construir um parque inspirado no escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro “O Pequeno Príncipe” e aviador que, na década de 1930, fez várias escalas várias vezes na praia, onde se tornou conhecido pelos pescadores como “Zé Perri”.

A área equivale a 20 campos de futebol. Fica a 500 metros da praia, num dos pontos mais valorizados da capital catarinense, cercada pela antiga vila de pescadores. O terreno foi comprado em 1927 pela companhia aérea francesa Latécoère, onde foi construído gramado com mudas trazidas da França. A pista servia de escala para voos dos correios na rota entre a Europa e Buenos Aires. Exupéry era um dos pilotos da companhia. 

A passagem de Exupéry é cultuada pelos moradores. O velho casarão que abrigou a administração da Latécoère foi preservado. Uma placa na parede indica o quarto onde o escritor teria dormido durante suas paradas no aeroporto. O velho hangar foi demolido e virou uma escola municipal.

Toda a mística do local gira em torno das visitas de Exupéry. Não há fotos dele no Campeche, apenas relatos de pescadores.  A biografia oficial do francês não registra suas passagens por Santa Catarina naqueles anos 1930. Exupéry só alcançou fama universal nos anos 1940, depois da publicação do “Pequeno Príncipe”: é o terceiro livro mais vendido do mundo, com 146 milhões de cópias em 250 idiomas.

O guardião da memória de Exupéry no local é o tenente reformado da Aeronáutica Getúlio Manoel Inácio, 63, filho do lendário Deca, pescador que teria sido amigo do escritor. O pai contava que pescava corvinas com ele, nos costões do sul da ilha. Celebrizado pela amizade, Deca deixou registrado que “nós comemos muita corvina ensopada, com biju” (rosca de farinha de mandioca).

O escritor teve tempo de participar do casamento de Deca com dona Chica e até assistir ao nascimento de alguns dos filhos do pescador. Exupéry desapareceu no mar durante uma missão de reconhecimento sobre o Atlântico, em 1944, quase ao final da Segunda Guerra.  O avião, sem o corpo, foi encontrado em 2004. Deca morreu de causas naturais, aos 83 anos, em 1994.

Inácio tem um armário cheio lembranças daqueles tempos, entre fotos, documentos e até peças de um motor de avião. Entre elas, um disco em vinil com a voz do escritor. Exupéry nunca escreveu sobre a capital catarinense. Suas obras “Correio do Sul” e “Voo Noturno” relatam experiências como piloto na África. “O Pequeno Príncipe” é dedicado a um amigo francês.

Getúlio Inácio reclama que a área tombada “poderia ser maior, porque o local tem 300 mil, conseguiram dar uma encurtada nele”. O espaço atual tem 114 mil m². As bordas do parque foram invadidas, os córregos drenados, mas os moradores sempre mantiveram vigília sobre o velho aeroporto, até o tombamento.

A cessão definitiva do terreno à prefeitura foi feita na semana passada em acordo na Vara Ambiental de Florianópolis, entre Ministério Público Federal, Secretaria de Patrimônio da União e prefeitura, com a condição de destinação exclusiva para parque público.

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